Prazer, Raquel Marinho Costureira por tradição, estilista autodidata, designer por formação, especialista em moda íntima com 36 anos de experiência no mercado, escritora, pesquisadora, mestre em Antropologia e doutora em Ciências Sociais.

Ao que parece a geração “Z” resolveu abolir o sutiã, Zendaya, Jenna Ortega, Billie Eilish e Bruna Marquezine que o digam. Não, “o sutiã” aquele protagonista que já foi herói e símbolo de libertação no início do século XX, alforriando as mulheres da tirania dos algozes e torturantes corsets e espartilhos também já foi alvo de fake news, sim, os sutiãs, os nossos amigos dos peitos não foram queimados em praça pública (nem na calçada) como as bruxas medievais já foram um dia, até porque, elas, ou melhor, nós, éramos queimadas por qualquer motivo (bastava diferir do padrão), ser mais articulada, se destacar em inteligência, influência, mais bonita, mais alta, mais baixa, mais falante e um cabelo ruivo já seria motivo para uma mulher ser incendiada (coitada da Marina Ruy Barbosa, ah! Ela não é mais ruiva).
O protesto no Miss América de 1968 não passa de um mito, os sutiãs não foram queimados, mas sim descartados em uma ação simbólica junto com cintas, sapatos altos, cílios postiços, maquiagem, revistas masculinas como Playboy e Cosmopolitan, produtos de limpeza e até espanadores em uma lata batizada de “Lixo da liberdade”, acidentalmente um cigarro provocou o fogaréu e… Buuuum, a mídia da época transformou a “queima dos sutiãs” em uma lenda, e não sem motivo, articulado por um jornalismo sensacionalista que superficialmente falava do poder de escolha das mulheres contemporâneas daquele período, impulsionadas pelas ativistas do movimento feminista da segunda onda, (mesmo não tendo acontecido de fato) a matéria articulava muito mais sobre o perigo das incendiárias que o protesto de fato, o objetivo da matéria se cumpriu, o que capturou na imaginação do público e se tornou um símbolo duradouro (e pejorativo, na maiorias das vezes).
E o sutiã que seria um vilão?

Assim como a Malévola, ele recuperou suas asas, se abriu para modernidade e voou, o sutiã continua voando alto. E é sobre liberdade que os ventos que direcionam para os novos comportamentos de consumo se movimentam, a moda íntima consolida caminhos onde “conforto é o novo sexy” e a prioridade máxima é como a peça faz as pessoas se sentirem, e não apenas como ela se parece aos olhos de terceiros. O foco mudou da “correção” do corpo para a “valorização natural”. Para 2026/2027 as tecnologias sem costura (ou pouca costura) estão mais presentes e eficientes, seamless, corte a fio e termocolagem substituem elásticos tradicionais que apertam ou marcam a pele; fibras cada vez mais inteligentes com poliamidas biodegradáveis que oferecem respirabilidade extrema, regulação térmica e beneficiamentos com propriedades antibacterianas e ativos que melhoram a circulação e aparência da pele, além de antíodor e muito mais, o novo disso é ser acessível; mas se é para falar de conforto, a revolução dos suportes sem os aros fazem toda a diferença na pele a ponto até esquecermos que estamos vestindo um sutiã, afinal desconforto e marcas sob a pele é coisa do século passado, aqui a estrutura rígida dos sutiãs tradicionais estão cada vez mais perdendo espaço para designs orgânicos que respeitam a anatomia dos corpos, os bralettes estruturados com tecnologia de compressão estratégica, com dublagem e “copas moldadas” oferecem sustentação até para seios maiores, modelos de sutiãs triangulares que mantêm a estética clássica, mas utilizam microfibras, rendas e elásticos ultra leves com alta performance e no lugar do obsoleto bojo rígido, os bojosultra flexíveis, ultra macios e ultra leves, que no quesito modelagem, respeito aos corpos e as formas destaco o Sr. Adailton José da Silva de 84 anos um profissional ativo no mercado e um verdadeiro entusiasta, que desenvolve um trabalho fantástico ao produzir as máquinas que promovem a fixação da moldagem de forma correta nos tecidos com o choque térmico por meio da máquina de resfriamento após o calor da conformação, o processo adequado e único capaz de garantir a fixação adequada e necessária para moldagens eficientes e orientadas para o conforto; o movimento body- neutral
é a evolução mal compreendida do body-positive (todos os tons de pele que o digam), pois se o body-positive deu voz e vez a diversidade dos corpos em uma busca pela estética real o body-neutraly mostra que a moda íntima serve para facilitar a vida, não para ser o centro das atenções ou frustrações.
A moda é um fenômeno sócio-econômico-cultural e a história da moda íntima é, intrinsecamente, uma história de controle e libertação dos corpos. Não à-toa, no auge do século XXI vemos o retorno do Victória’s Secrets Fashion Show depois de um hiato de seis anos com casting de modelos polidamente articulado que não representam a diversidade real dos corpos (mas cala a boca das mídias) em paralelo à popularização das canetas emagrecedoras e nos reds
Carpets o retorno da ditadura da magreza e da juventude eterna, ladeada por celebridades com idades indecifráveis e imagens tão esquálidas quanto fragilizadas, evidenciando historicamente que controlar o corpo das mulheres quer dizer muita coisa, a repressão à imagem feminina por meio da mídia, e isso não é uma repetição histórica, é um fato, tão cruel quanto uma fogueira difamatória inexiste.
E Red Carpets a parte, a estética Boudoir colocou a lingerie no topo do podium da moda, com camisolas que viraram vestidos de luxo em corpos tão esculturais quanto inacessíveis, as capas de revistas modernas popularizadas em redes sociais evidenciando para as mulheres comuns que tanto quanto se lute, o corpo ideal sempre será inalcançável. Como estilista especializada em lingerie a estética Boudoir nos Red Carpets muito me agrada, mais uma moda que passa e a lingerie sempre fica.
No entanto, o que mais me chama atenção e me intriga mesmo, é que nos altos dos seus privilégios, talvez as influenciadoras da geração “Z” não saibam que 90% das mulheres no mundo precisam de acesso a produtos com tecnologia para garantir segurança e conforto durante as atividades que movem o mundo e muito longe dos holofotes e de atos de rebeldia vazia, que falam muito mais de privilégios e uma má releitura histórica de liberdade.
A liberdade não é o vazio; é a segurança de mover o mundo sem ser ferida pela própria roupa. O verdadeiro conforto para mulheres reais é sentir-se segura, os comportamentos mudaram, nós não somos mais a Ophélia de Shakespeare que de tanto agradar aos outros perdeu-se de si mesma, em contraste, talvez sejamos a Ofélia da Taylor Swift que embaladas por hits de tantos avanços possamos nos reencontrar em nós mesmas. Afinal, se Frida Kahlo tinha asas para voar, os sutiãs que queremos nos concedem conforto e liberdade para usar tudo que quisermos e sem marcar, afinal, essa fogueira nós já pulamos!
